FÁTIMA

por Filipe La Féria

Quando as luzes da sala do Teatro Politeama se apagarem e o pano subir, o palco iluminar-se-á com uma poderosa fábula que transcende o tempo e o espaço. FÁTIMA – Ópera-Rock não é apenas um espetáculo; é uma reflexão profunda sobre Portugal, a sua história, e a dimensão cultural, espiritual e humana que projetam o nosso país no mundo, tocando pessoas de todos os continentes e religiões.

Inspirado nos acontecimentos de 1917, na Cova da Iria, onde três crianças foram o centro de um fenómeno que ecoou universalmente. O espetáculo não se limita a uma reconstituição ficcional das aparições de Fátima. Trata-se de uma visão do ser humano, do encontro e da encruzilhada das gentes, da hierofania que manifesta o sagrado no profano. O real e a investigação sobre este fenómeno extraordinário são apenas o ponto de partida para uma narrativa onde o lirismo espiritualiza cada momento sem cair no dilema maniqueísta da verdade e da mentira.

Nossa Senhora, mãe de todas as mães, surge como símbolo da esperança universal, da proteção e do amor incondicional, resgatando as dores do mundo e oferecendo aos peregrinos a essência da Fé. Lúcia, a menina que vê o que se oculta, carrega o peso das dores humanas e a força das visões que se tornariam o centro de um dos maiores mistérios da Fé católica.

Fotografia de Ensaios de Fátima - Ópera Rock

Na descoberta da história de Fátima, encantei-me com personagens de uma profundidade avassaladora: Maria Rosa, Maria da Capela, Olímpia, Manuel Marto, António, o Abóbora – figuras que representam os vencidos e humilhados pelas dores do mundo, mas também a resistência dos pobres camponeses que lutam pela sobrevivência na terra madrasta e seca.


A eles, junta-se a figura dos oportunistas, que tentam explorar a miséria humana, aqui representados por Bazófia e o seu aprendiz de mercador. O Administrador de Ourém, Artur de Oliveira Santos, o republicano idealista, e figura controversa, militante da Carbonária e membro da Loja Maçónica Acácia de Lisboa. E também ele herói e vítima, injustamente remetido ao papel de algoz da narrativa de Fátima. Se o seu radicalismo o fez levar a perigosas consequências, o seu amor à Liberdade e à transformação do Homem Novo permaneceram puros e coerentes na aventura de uma vida intensa e fiel aos mais nobres valores do progresso. Personagem principal é porém o Bispo de Leiria que inicia o processo canónico que levará Fátima a ser o Altar do Mundo. Essas vidas, com todas as suas contradições, inspiraram-me a construir um verdadeiro evangelho de esperança em FÁTIMA – Ópera-Rock.


A mãe, Maria Rosa, é o símbolo de um mito maior, o da alma mater. Numa interpretação livre e poética, ela é a mulher angustiada entre a miséria, o horror da guerra, a perda do filho no ventre e a do outro filho na batalha de Lys, além do medo das visões de Lúcia. Maria Rosa é o retrato da mulher portuguesa de 1917, ao mesmo tempo sofredora e resiliente, resignada, mas protetora. Fátima - Ópera-Rock, é um tributo à Mãe da terra e à Mãe do Céu, Nossa Senhora, Mãe da humanidade.


A escolha do Rock como linguagem musical é, também, uma afirmação de contemporaneidade. Esta música, com a sua energia, intensidade e revolta, permite atualizar uma história antiga e torná-la viva e presente, dialogando com o nosso tempo.

A força desta obra está na sua capacidade de dar vida ao Milagre da esperança, convidando todos – crentes ou não – a participar de uma celebração que é, acima de tudo, profundamente humana e universal.

Porque o Teatro, tal como a própria Fátima, tem o poder de nos unir no inexplicável e de nos fazer acreditar que, mesmo no abismo, há luz.

O pano vai subir. Venham descobrir esta história que é de todos nós.

Ensaio de Fátima - Ópera Rock
Teatro Politeama Lisboa

Fotografia de Paulo Winz

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